Sobre o conto Existências

Há muitos anos assisti uma entrevista de Caetano Veloso em que o entrevistador lhe perguntava o que ele quis dizer com a letra de Como Dois e Dois. Nunca me esqueci da resposta: “ih, rapaz, sabe que eu também não sei?” Pois é, assim é a arte. As coisas brotam e a gente vai juntando os pedaços. É um quebra-cabeças que surpreende o próprio criador. Se me perguntassem o que eu quis dizer com Existências talvez repetisse a resposta de Caetano, embora saiba a origem do conto: uma certa sensação, que me acomete às vezes, de que determinado pensamento não é meu.

Psicólogos chamam isso de pensamento intruso. Eu chamo de inspiração porque normalmente esses estranhos pensamentos  são textos que surgem meio prontos. Foi assim com TheoDora, por exemplo, em que o primeiro parágrafo simplesmente brotou. O resto teve que ser tirado a fórceps daí de dentro.

Inspiração é algo que vem do fundo de você quando há calmaria suficiente na superfície. Vem como um peixe, um boto, um galho de árvore, uma bota velha ou um corpo ressurgindo do fundo do lago. Você olha aquilo e se pergunta como foi parar aí? O que estava fazendo no fundo do lago? Por que subiu agora? Isso é inspiração e acontece com todo mundo, de um jeito ou de outro. O que as pessoas fazem com ela é que varia bastante.

Mas Existências não nasceu de uma frase que emergiu do fundo do meu lago-insconsciente. Surgiu, ao contrário, de observar a inspiração, ela mesma. E se esses pensamentos, que parecem soprados por outra pessoa, fossem… soprados por outra pessoa? E se nós, que nos achamos tanto, não fossemos mais do que uma Matryoshka, aquela bonequinha russa que tem uma dentro da outra, dentro da outra, dentro…? Quem estaria dentro de mim? Quem estaria dentro de você?

A situação fantástica proposta em Existências – o diálogo entre atriz e personagem – abre, em sua irrealidade singular, espaços para interpretações as mais diversas. Um amigo me disse que era um texto sobre masturbação. E não é? Se a masturbação é o descobrir-se, explorar-se, conhecer-se? Então é. É também. É sobre isso e tudo o que somos. Porque, como nos diz Herman Hesse, “o ser se compõe de uma pluralidade de seres como um feixe de eus“. Não somos unos.

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